Abraham Jesús Quintanilla Chuquillanqui passou a integrar a estatística mais recente dos assassinatos por encomenda em Carabayllo, distrito de Lima, no Peru — uma lista que cresce enquanto as autoridades seguem fingindo surpresa. O motorista de 48 anos foi executado com eficiência por dois criminosos que o interceptaram e dispararam várias vezes contra ele enquanto abastecia seu veículo em um posto de gasolina na Avenida Túpac Amaru. Um cenário cotidiano no país, um final previsível.
Há mais de dez anos no transporte público peruano, Quintanilla trabalhava para a empresa Estunsac. Segundo colegas, o “erro” da empresa foi ter interrompido o pagamento de propinas.
As câmeras de segurança, sempre pontuais quando já é tarde demais, mostram o motorista ainda em seu assento quando dois pistoleiros em uma motocicleta surgem em alta velocidade. Eles estacionam diante do para-brisa e descarregam cerca de dez tiros.
A Estunsac, empresa de transportes que opera a rota entre Carabayllo e San Miguel, em Lima, levou a vítima ao hospital mais próximo. Quintanilla morreu a caminho.
Um representante da empresa confirmou o que já se tornou rotina no país: a Estunsac vinha sendo extorquida há mais de oito meses. A decisão de suspender os pagamentos foi recente e, segundo a versão oficial, não houve ameaças diretas que indicassem o ataque. Porque, aparentemente, no Peru, a morte também não precisa de aviso prévio.
Após o assassinato, mais de 25 unidades da empresa suspenderam suas atividades. Não por luto, mas por medo. O gerente confirmou a paralisação por tempo indeterminado das operações, citando o risco de novos ataques contra os motoristas.
“Se pudéssemos ter pago, teríamos pago, porque uma vida vale mais do que dinheiro”, afirmou o gerente. A frase resume o paradoxo nacional: pagar para viver, parar de pagar para morrer — tudo isso em um país onde o crime cobra em dia e o Estado costuma chegar depois do velório.




